Papo Reto

- contos também serão postados aqui, sempre conteúdo autoral -

De todos os quadros que decoravam sua casa, aquela réplica de Picasso era a que mais lhe agradava. Podia passar horas olhando, admirando, descobrindo um novo detalhe a cada instante, redescobrindo antigos também.

Naquela noite chegou cansado, como ultimamente chegava, mal se despiu e caiu sobre a cama. Dormiu.
O barulho de goteira o fez acordar. Não conseguia acreditar que a pia da cozinha estava vazando mais uma vez, afinal, há pouco menos de duas semanas ele a tinha consertado.

Cambaleou num misto de preguiça e raiva até a pia, nada. Esperou alguns segundos para ter certeza que a pia não havia parado apenas para retornar o pingado assim que ele deitasse novamente. Nem um pingo, porém o barulho permanecia.

Então seguiu-se a mais breve procissão já registrada: cozinha, banheiro, lavabo. Nada.
Já consternado passou em frente ao quadro. Com uma expressão de incredulidade congelada em seu rosto ele tentava processar o que se passava. Era o quadro.

Assim que seus olhos se fixaram na pintura, ela, como quem estivesse apenas esperando a atenção de seu dono, passou a vazar vertiginosamente. Logo escorria, quase uma pequena cachoeira.

Depois que a tinta derramada, que parecia não acabar nunca, tomou conta de todo piso, começou a subir pela paredes.
O processo era lento, mas devido a tamanha surrealidade, causava mais fascínio que medo. A única reação mediante tudo que se passava foi ajoelhar-se e tocar a tinta, esta parecia não querer grudar em sua mão, mas voltava a unir-se com o restante que tomava o teto naquela altura.

Por fim, a casa estava tomada. Ele estava dentro de seu quadro favorito. Dias se passaram até que ele saísse e, quando enfim o fez, estranhou.

Acostumara-se tanto ao cubismo em que vivera recentemente que todas aquelas curvas quase incomodavam os olhos.
Mas o quase virou sempre.

A pouca interação externa que mantinha nos últimos dias era quase insuportável. O desconforto por aquele tanto de curvas passara a ser algo tão forte que precisou adaptar-se.

Mudou o ambiente no trabalho, tudo possuía cantos, ângulos, traços e mais traços retos.
Na bicicleta que pedalava até o trabalho, se observada bem de perto, era possível perceber que as “rodas” eram, na verdade, dois polígonos com cerca de 80 lados.
Perdeu a barriga, mudou o corte de cabelo.
Trocou a mochila por uma pasta executiva.
Usava uma quantidade ridícula de goma em suas roupas e, como se já não causasse estranheza suficiente, todos os seus ternos agora possuiam ombreiras.
Mudou até mesmo de opiniões políticas, adotando uma postura mais conservadora, pois adorava ser chamado de quadrado.
E, por sorte, estava de folga no dia em que Niemeyer morreu, pois não conseguiria esconder o riso involuntário que, note-se, não era mais cheio, agora só com o canto da boca.

Tudo parecia estar suportável, mas bastou a nova funcionária chegar e ele percebeu que sua angústia não teria fim.
Dotada de feições modestas detinha, porém, um corpo extremamente escultural. As curvas transformadas mulher.

Para seu azar, quanto mais a evitava, mais ela se interessava. Sua incapacidade de manter os olhos em suas curvas o forçava a manter a atenção na única coisa quadrada que encontrou: seus óculos. Isso a fez encantar-se ainda mais. Finalmente encontrara um homem que não se deixava distrair por seu belo corpo, mas encarava-a no rosto, e não por educação, mas por que parecia realmente feliz em olhá-la face-a-face.
Ele sorria, de fato, mas era alívio.

Inegavelmente, o fascínio crescente que ela passava a nutrir por ele começou a atingi-lo e, quando menos esperou, o dia não era mais o mesmo enquanto ela não chegava no escritório.

Veio então o impasse. O tempo no trabalho era o máximo que conseguia suportar longe de um mundo puramente cubista, mas tornara-se pouco para desfrutar da presença dela.
Então, no meio de um dia de expediente, enquanto buscava uma solução para o mencionado imbróglio, ela surgiu em seu cubículo. E dessa vez sem os óculos.
Uma onda de pânico tomou seu corpo. “Será que ela esqueceu?” “Ou comprou lentes de contato?” “Ah meu Deus! E se ela tiver feito cirurgia?”
Enquanto ele percorria o ambiente a procura de algum canto reto para descansar a vista, notou sua mão estendida e nela o par de óculos. Uma das lentes havia rachado em vários pedaços.

“Será que você conhece alguém que saiba consertar?”. Ela com certeza sabia, mas era outra de suas tentativas para se aproximar dele.

Ele, então, pegou os óculo, desdobrou as pernas e o ergueu contra a luz, a fim de parecer querer estudar melhor a avaria, quando na verdade apenas queria desviar o olhar daquele mundo de curvas femininas.

“MAS É CLARO!”. A alegria e o entusiasmo foram tamanhos que ele simplesmente ignorou o bilhete que veio junto com os óculos: “jantar?”

Para a sorte de ambos, ela realmente precisava daqueles óculos e não percebeu que ele sequer havia lido o bilhete, acreditando assim ter sido recompensada por todo o esforço de romper preconceitos e chamá-lo diretamente para um encontro.
Ele, por sua vez, partiu para a óptica.

Foi o pedido mais estranho já encomendado naquele lugar e o dono estava realmente receoso em confeccionar sem requisição médica; mas essa fora a parte fácil, a maior demora fora quando o caixa quis arredondar o orçamento.

Era a coisa mais esquisita possível, depois do próprio dono, porém cumpria seu papel. Uma coletânea dos mais variados cacos de lentes, de diferentes graus, formavam em cada lado da armação o caleidoscópio mais vertiginoso que já existiu.
Para ele, a mais brilhante ideia que poderia ter lhe ocorrido. Agora via tudo reticulado, fragmentado, a mais perfeita das circunferências ganhava ângulos por toda sua forma.

“Multipolaridade focal aguda”. Era o que dizia para justificar o bizarro acessório, especialmente para as colegas da filha, que para a tristeza do pai, puxou todas as curvas da mãe.

E durante toda sua vida sequer pensou em voltar a ser como era, aceitou sua nova natureza por mais problemática que fosse. Só uma coisa odiava nisso tudo, era admitir que a vida girava.

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